Home

Recuperar a informação onde o ruído cria incerteza.”

Fundado por Fernando Portela Câmara, MD, PhD

Consultoria – Cursos – Palestras – Pesquisa – Publicações

 

A questão essencial nos dias de hoje é a nossa capacidade para tomar decisões, desde o nosso viver cotidiano à administração de uma multinacional. Vivemos em ambientes de incertezas e imprevisibilidade: como tomar decisões em tais cenários? Inteligência e cognição não bastam atualmente, precisamos de recursos computacionais para lidar com massas de dados. O mundo mudou, estamos evoluindo do humano, para o transumano, e do transumano para o pós-humano. Já não falamos mais em humanismo, da herança renascentista, mas do pós-humano, do futuro de uma espécie alienígena cujos limites entre o humano e a máquina já não serão perfeitamente distinguíveis.

O cérebro humano evoluiu até os limites biológicos da espécie. A partir daí a evolução passou a ser social e cultural, por volta de cem mil anos atrás. Mas então a cognição começou a ultrapassar esses limites há poucos milhares de anos. Começamos a dominar forças da natureza e a criar ferramentas auxiliares sofisticadas para estender a capacidade de lidar com dados e formular estratégias para tomar decisões, sob o risco constante do imprevisível. Com isso a espécie humana começou a ultrapassar o seu limite biológico e entrou no artificial, começou um processo de criação para o qual não há sucedâneo na terra e nem em outros planetas. A nova criação não depende da existência de material natural disponível e nem do acaso e da eras infindáveis. Ela agora é baseada na inteligência e no propósito, no engenho e na ambição. O Humano usurpou o lugar do Demiurgo.

E tudo por culpa do impulso de Prometeu, que roubou o segredo divino e o deu a Adão, talvez por pueril vingança, e por tal foi aprisionado no cérebro. Eis o segredo furtado: a aprendizagem. Acorrentado no cérebro, esse gênio volátil seleciona informações relevantes em meio a ruídos para então associa-las a um padrão estatisticamente regular, extraindo um significado nas amostragens da massa caótica. Esses dois processos estatísticos, seletivo e construtivo, nos mostra o que é o cérebro. Ele é basicamente um sistema adaptativo, um solucionador de problemas, que seleciona informação, estabelece significados e toma decisões. Um sistema inteligente ou cognitivo, se quiserem, ou adaptativo, melhor dizendo.

Mas se o cérebro cria a individualidade e gerencia o organismo, além do comportamento e reflexos, ele evolui para a vida social. O cérebro é um órgão social, um processador organizado a partir de neurônios interconectados que controla o organismo, mas também é ele mesmo um elemento conectado a uma rede de cérebros que formam grupos, empresas, partidos, sociedades, movimentos sociais, cidades, países – superorganismos fluidos. Caído na terra, o gênio acorrentado quer libertar-se para retornar à pátria celeste. O animal pertence à terra, mas talvez não aquilo que se esconde sob a trama das incessantes oscilações elétricas da massa cortical.

Há apenas um século começamos a nos preocupar em estudar nosso cérebro, como ele atua e como melhor usá-lo, qual o efeito da sobrecarga cognitiva e afetiva na tomada de decisões, como o pensamento se altera nas exaltações coletivas e como ele é manipulado midiática e quimicamente. Sobretudo, como o cérebro adoece e com isso o indivíduo perde a sua autonomia, sua capacidade de criar e produzir, ter prazer em conviver e trabalhar, amar e emancipar-se, condenado a viver em um loop infinito, sem nada concluir. Não há dois cérebros, iguais, nem o design é perfeito em todos; pelo menos um em cada cinco cérebros tem problemas suficientes – “defeitos de fábrica” – para que o ajudemos a alcançar a autonomia criadora. Isto significa quase dois bilhões de almas na população mundial. É a missão do psiquiatra.

O cérebro está no mundo, e o mundo é o cérebro.