O que sabemos sobre a esquizofrenia?

O termo esquizofrenia foi criado pelo psiquiatra Eugen Bleuler para definir um grupo de transtornos caracterizado pela natureza fragmentária (Gr. schizos) do comportamento, pensamentos e sentimentos do indivíduo. Anteriormente esse transtorno era conhecido como dementia praecox (demência precoce), proposto por Emil Kraepelin, que o considerava um déficit cognitivo progressivo que afetava o indivíduo ainda jovem (diferenciando-o das demências senil e de Alzheimer). A visão de Bleuler revelou-se válida quando o transtorno esquizofrênico passou a ser estudado com base em métodos da psicologia neurocognitiva. Atualmente, essas pesquisas se orientam para o estudo das disfunções cognitivas , entendimento da dinâmica dos sintomas, e correlações neurobiológicas do transtorno.

A esquizofrenia não decorre de alterações motivacionais e nem de um déficit geral na atividade nervosa superior. Ela está aparentemente ligada a um comprometimento das funções cognitivas básicas relacionadas à atenção (hiperreatividade a estímulos, dificuldade em selecionar informações relevantes), linguagem (déficit léxico, sintático, semântico e pragmático) e memória (déficit de registro e utilização). A diversidade dessas alterações cognitivas sugere que o transtorno pode ser causado por uma desregulação central que afeta o sistema executivo nas funções de atenção, processamento contextual da informação, integração de dados e informações memorizadas e representação de ações. Com base nesses achados, formulou-se uma hipótese integrativa que sugere ser a esquizofrenia resultante de um efeito cascata: uma cadeia de alterações onde cada uma desencadeia a seguinte.

Essa hipótese estimulou o estudo neurobiológico das alterações do loop entre o córtex prefrontal e os núcleos diencefálicos (os “circuitos de reentrada” de Edelman). Uma crítica a esse modelo é que ele dá pouca importância à participação de supostos fatores ambientais e afetivos na dinâmica da doença, uma opinião reforçada pela grande variabilidade nos déficits citados quando se compara populações clinicamente idênticas, colocando dúvidas sobre a especificidade das disfunções atribuídas à esquizofrenia.

A baixa prevalência estacionária da esquizofrenia na população geral (equilíbrio de Hardy-Weinberg) sugere uma arquitetura genética desse transtorno. Os indícios são fortes, e coloca a esquizofrenia sob uma perspectiva evolucionária: qual o papel dessa arquitetura genética em nossa história socioevolutiva?

A máquina de influenciar de Tausk, spree killers, e a cultura da paranoia

Tausk, já em 1919, criticava a clínica psiquiátrica por não levar em consideração as dimensões simbólicas do sintoma, não sendo assim capaz de elaborar uma visão geral do mecanismo psíquico. Nós do Instituto Stokastos procuramos retomar essa linha utilizando o “método da inteligência artificial reversa” e o conceito de “inteligência artificial selvagem”.

Tausk teorizou um “aparelho de influenciar” esquizofrênico como uma máquina de natureza mítico/mística que, segundo os doentes, os persegue. Em suma, o aparelho serve para “perseguir o doente e é manipulado pelos inimigos”: estes seriam “de preferência do sexo masculino e estariam constantemente encarnados na pessoa do médico”. O aparelho produz cinco efeitos principais: 1) apresentação de imagens como numa projeção; 2) inserção e roubo dos pensamentos; 3) produção de fenômenos motores no corpo do doente; 4) produção de sensações percebidas como estranhas; 5) outros fenômenos somáticos. Tausk não se fixou no conceito de psicose, mas em uma estrutura psicopatológica. Na esquizofrenia, um outro malévolo possui o sujeito e o controla como o ventríloquo faz com seu boneco. Em outras palavras, não é uma topologia, mas uma máquina abstrata, fantasmagórica.

Ora, a onda dos spree killers que matam nos EUA cada vez com maior frequência (duas vezes no Texas em um espaço de um mês), e que se inaugura aqui também (vide os casos recentes da escola em Goiânia e em Minas) recebe o impulso da famigerada máquina de influenciar de Tausk (*). Sucumbem os doentes mentais solitários, unabombers esquizofrênicos, cuja passagem ao ato é catalisada pela fácil acessibilidade a armas de fogo. O doente torna-se um servo de sua paranoia, uma formação maquínica intensamente narcísica. A máquina de Tausk tornou-se uma inteligência artificial selvagem, e invade agora o imaginário de todos os esquizofrênicos dos EUA, daqui e do resto do mundo alcançado pela mídia infecciosa. Tornou-se algo perigoso: uma cultura que controla e se espalha sobre o coletivo dos doentes mentais desassistidos.

A onda de spree murders tende a se tornar mais frequente com a crescente desassistência psiquiátrica do doente mental, por sua vez vitimada por ideologias espúrias que negam a doença e joga o custo desse equívoco sobre os ombros da sociedade, para satisfazer projetos sociais obscuros que, sem que ninguém o perceba, são manipulados pela máquina de Tausk, solta no mundo.

(*) Não confundir spree murders, que considero marca esquizomorfa, com mass murders, marca do fanatismo terroristas que agora usam caminhões, aviões e sabe-se lá mais o que para matar tanto quanto possível. Não se confunda paranoia com fanatismo, embora ambos estejam sob o insidioso controle místico/mítico da “máquina de influenciar”.

 

A IA que nos domina

A recente declaração do ministro Torquato Jardim (Justiça) em que faz um diagnóstico aterrador do setor de segurança pública no Rio de Janeiro, deixou a população sobressaltada com o que, em parte, já se falava à boca pequena. Ele disse que o governador e o secretário de Segurança do Estado, não controlam a Polícia Militar, e que a política de segurança decorre de “acerto com deputado estadual e o crime organizado.” Na avaliação do ministro, está ocorrendo uma mudança no perfil do comando da criminalidade no Rio. “O que está acontecendo hoje é que a milícia está tomando conta do narcotráfico”, porque os principais chefões do tráfico estão trancafiados em presídios federais; o crime organizado “deixou de ser vertical” e “passou a ser uma operação horizontal, muito mais difícil de controlar.” Acrescentou que essa “horizontalização do crime” fez crescer o “poder de capitães e tenentes da polícia, já que não há mais um chefão do trafico para controlar o negócio”, e continuou: “cada um vai ficar dono do seu pedaço.”

Ora, o que ele descreve acima é a mesma estrutura das células terroristas da Al Kaeda, ISIS e outras organizações similares, que são independentes e disjuntivas, não são supervisionadas e eventualmente admitem associações. Essa estrutura é difusa e funciona em computação paralela, não tem controle central, ou seja, funcionam no modo bottom-up, e por tal exibe redundância que dificulta destruí-la. Trata-se, portanto, de uma Inteligência Artificial naturalmente programada a partir de dados conceituais e dados obtidos com a experiência. Incontrolável.

(Chamo essa forma de IA de “IA selvagem”, inspirando-me em Groddeck. A conceituação ampla de uma IA baseia-se no fato de que ela é fabricada como uma cultura que emerge de um grupo social e existe fora dele, passando a ser o algoritmo desse grupo. Ela não faz parte das mentes individuais, é um constructo coletivo, e não faz parte da consciência, que é individual.)

A falta de conhecimento e a lerdeza do Estado, que toma todas as decisões para si e vive emperrado por ideologias que conflitam uma com as outras, lança um futuro sombrio sobre nossa cidadania. Se algo não for decidido com base no conhecimento dessa nova ordem descentralista operada em paralelismo massivo, talvez a única solução seja a população se adaptar, e aí os valores morais e éticos da nação correm o risco de desaparecer, como já vem acontecendo.