O que há com o câncer?

Depois de 50 anos de pesquisas e trilhões de dólares investidos, pouco se avançou na cura ou remissão estável do câncer. Entretanto, algumas coisas ficaram claras:

1) Não existe uma só linhagem de células cancerosas, mas muitas. Um câncer inclui várias populações de células com mutações variáveis, algumas podem ser muito agressivas. É um carnaval.

2) Se eliminamos uma forma agressiva, cirúrgica ou radio/quimicamente, as que ficaram quietinhas (pouco agressivas) podem vir a sofrer mutações altamente perigosas, e ai tudo volta a acontecer. Não é raro.

3) Sabemos hoje que se o câncer está sossegado no lugar dele, é melhor deixá-lo como está e faze-lo feliz. Cuidem bem dele e deixe-o satisfeito; não cutuquem a onça, apenas vigie. Ele só se torna uma máquina de destruição total quando resolve fazer baderna e se multiplica em metástases, invadindo todo o corpo.

4) Vejam bem, metástase não dá sintomas, você pode estar se divertindo numa boa enquanto está sendo invadido e atacado, comido por dentro. Os sintomas só aparecem quando a carga é tão grande que começa a colapsar o organismo, e aí o bicho pega.

5) Por fim, sinto muito em destruir vossas ilusões pelo que vou dizer aqui. A taxa de câncer correlaciona-se com a taxa de mutações, genética familiar e idade. Você pode praticar exercício, ser vegetariano, tomar vitaminas, ser odara e natureba, não estará livre do onco-evento. Tudo depende de mutações, exposição a mutágenos e, naturalmente, seu DNA velho de guerra. Mas é bom ser saudável, exercitar-se, não fumar, reduzir o álcool, ter cabeça feita, porque tudo isso ajuda a ter uma boa saúde e, assim melhor condição de luta, se alguma célula “descobrir” o que ela é realmente, e partir para os finalmente. Nosso genes nunca foram nossos amigos, é só pensar direitinho.

A esperada cura para o câncer vai demorar ainda.

Ah! Se puderem assistam “Aniquilação” (“Annihilation”), na NETFLIX. Não conheço melhor ficção sobre o que é realmente o câncer. Também recomendo a leitura de “A Vida Imortal de Henrietta Lacks”, para arrematar o bate-papo. Não pensem que vocês são o apogeu da criação, há algo aterrador em nossa natureza, e só viemos a esse mundo por causa de uma providencial falha genética. Deveríamos ser amebas despreocupadas nadando e dividindo-se ad eternum no Éden da vida. Nem mesmo Deus está isento de erros, ou melhor, da estocasticidade dos eventos. Mas isso é outra estória (ou história?).

O que é CRISPR? Edição de genes

Uma notável descoberta da biologia molecular foi o sistema CRISPR. Quando uma bactéria é infectada por um vírus (“bacteriófagos” = vírus que convertem bactérias em fábricas de propagação de vírus em massa), as poucas que sobrevivem removem pequenos pedaços do DNA viral e os inserem numa região do cromossoma bacteriano denominada Clustered Regularly Interspaced Short Palindrome Repeats (CRISPR).

CRISPR é um arquivo onde a bactéria registra dados de vírus a que foram expostas, e passam à descendência essa memória, conferindo imunidade genética. O locus CRISPR é uma espécie de “cartão de vacinação” da célula. Nesta região, pequenos segmentos de RNAs são transcritos contendo uma cópia exata da sequência do segmento de DNA viral arquivado.

Esses pequenos RNAs associados ao locus CRISPR ligam-se a uma proteína chamada Cas9, formando um complexo – sistema CRISPR – que funciona como uma sentinela. Quando um vírus entra na bactéria, o arquivo é rapidamente ativado e faz cópias de arquivos virais em RNAs, que é acoplado à Cas9. O sistema faz uma varredura em todos os DNAs presentes na célula, e se o RNA guia encontra um segmento que pareia exatamente com ele, a Cas9 o corta com precisão, inativando-o definitivamente. O corte é muito preciso e se dá nas extremidades reconhecidas como “sequências palíndromes”, separando a dupla fita do DNA alienígena.

Uma propriedade muito importante do sistema CRISPR é que ele é programável, isto é, podemos programá-lo para reconhecer segmentos específicos de DNAs. Isto nos permite fazer modificações bem precisas no DNA celular, semelhante às correções que fazemos num texto usando o processador Word, substituindo uma letra (base) ou modificando uma frase inteira (sequência de bases).

Essa tecnologia logo foi estendida para outras células, possibilitando a edição de genes, e com isso a terapia genética tornou-se uma realidade. Podemos agora programar células animais e vegetais com essa tecnologia. Programamos um CRISPR em laboratório, e então o colocamos nas células-alvo, simples assim. A tecnologia CRISPR avança, novas ferramentas estão sendo testadas.

As células têm um sistema SOS de detecção e reparo de quebras (cortes) em seu DNA. O reparo se faz com pouca modificação local, o que pode levar à inativação de um gene, ou pode integrar um novo pedaço de DNA no lugar, se for o caso. Desse modo, podemos programar o sistema CRISPR para “nocautear” genes ou ativar genes, inserindo bases específicas, ou então substituir uma base por outra, de modo a corrigir uma mutação. É uma esperança para as três mil doenças genéticas como, por exemplo, fibrose cística, anemia falciforme, doença de Huntington, que se devem a uma mutação numa das bases. Quem sabe futuramente possamos também editar genes envolvidos em alguns transtornos mentais?

Podemos fazer o mesmo para erradicar o herpes, o HIV e outros vírus endógenos. A tecnologia CRISPR é uma terapia promissora para o câncer. É possível agora programar células do sistema imunológico de um indivíduo para reconhecer células cancerosas. Em 2016, pesquisadores chineses conseguiram programar células imunológicas para destruir um tipo de carcinoma pulmonar com grande sucesso. Daqui a mais uns anos teremos a primeira ferramenta efetiva para combater o câncer. Os EUA já patentearam essa forma de terapia.

A tecnologia CRISPR é simples, precisa, barata (reduziu em 99% os custos da engenharia genética), com a grande vantagem de ser reprogramável. Sem dúvida, é uma revolução na terapia gênica para doenças até agora incuráveis. Mas as implicações que isto poderá trazer para outros setores da biologia humana (bebês geneticamente modificados e mesmo modificações na espécie humana e criação de raças antropoides) nos empurrará para um confronto bioético tremendo.

Assistam a um vídeo didático sobre CRISPR, uma contribuição do nosso seguidor Angelo Buoro.

Um vídeo mais detalhado pode ser visto daqui.