Morte e desespero dos genes

Um vídeo muito interessante e instigante, liberado recentemente pela revista Science, resume o estado atual das pesquisas sobre expressão gênica após a morte.

Nem todas as células morrem junto com o corpo, algumas podem ficar ativas por mais tempo, sugerindo que alguns genes continuam trabalhando após a morte. Não sendo inteligentes, senão apenas meros algoritmos, eles nada sabem ou percebem da tragédia que nós humanos, em consciência, tanto tememos e rogamos misericórdia aos deuses e à medicina techno, com suas panaceias rejuvenescedoras e antienvelhecimento… E para o horror de muitos, estudos recentes mostram que a consciência sobrevive por algum tempo (esperemos que por momentos breves) após a morte. (Sentiremos dor ao doar os órgãos logo após passarmos? Ouviremos as pessoas ao redor? Sentiremos a angústia dos maus tratos com o corpo morto? Um pouco de paranoia aqui pode ser importante para uma boa reflexão…, como Freud recomendava.)

Algumas horas após a morte, a rigidez cadavérica se instala – todos os músculos se contraem irreversivelmente, dando ao corpo uma aparência rígida. Dois a quatro dias depois, a degradação das proteínas musculares causa seu relaxamento, dando início à putrefação. Em seguida, as bactérias anteriormente presentes nos organismos e microrganismos externos (bactérias, fungos, insetos e outros invertebrados) alimentam-se do cadáver, sucedendo espécies após espécies numa ordem que segue de acordo com o estágio de decomposição, até não restar mais nada a consumir. Esse processo pode levar anos, dependendo de vários fatores.

Nos primeiros dias após a morte, algumas células continuam a mostrar sinais de atividade, sugerindo que o DNA ainda é capaz de expressar genes. Isto foi comprovado medindo-se a expressão de cerca de mil genes em ratos e em paulistinhas (um popular peixinho de aquário) por quatro dias após estarem mortos. Descobriu-se que os genes envolvidos na resposta imune, estresse, inflamação e câncer continuavam ativos.

Surpreendentemente, descobriu-se também que genes que eram expressos somente durante o desenvolvimento embrionário eram ativados na morte. Como esses genes silenciam após a fase do desenvolvimento, não mais se expressando pelo resto da vida do indivíduo, levantou-se a hipótese de que algumas condições celulares presentes durante a formação do embrião poderiam ser encontradas na morte. Parece que esses genes voltam a tentar impulsionar novamente vida no organismo…

A atividade de proteínas reguladoras da expressão gênica (nucleossomas, estruturas formadas por oito histonas) aumenta no final da vida, e os genes de desenvolvimento são normalmente bloqueados por essas proteínas, mas após a morte o bloqueio se desfaz e esses genes despertam.

Em um estudo com mais de 9.000 amostras de 35 tipos diferentes de tecidos de humanos falecidos, descobriu-se que em alguns órgãos, como o cérebro e o baço, a expressão gênica variava apenas ligeiramente. Já nos músculos, a atividade era muito diferente: mais de 600 genes mostravam aumento ou diminuição na sua expressão. Esses diferentes padrões de atividade gênica implicam na existência de mecanismos bioquímicos ativos após a morte.

Ora, a expressão desses genes não tem valor algum na morte. Contudo, se o organismo está em agonia, a ativação de genes relacionados à inflamação e ao estresse, em derradeira tentativa de restauração da condição vital, pode ser vantajosa. É possível que a expressão post mortem dos genes mencionados seja um traço ou prolongamento da cega tentativa de reinicializar o organismo. Isso me faz pensar… se o genoma não tem instrução ou programa que reconheça a morte, parece que seus algoritmos evoluíram eventualmente para impulsionar e manter a vida a todo custo… Não existe pulsão de morte na evolução…

Por outro lado, pacientes que recebem órgãos de indivíduos falecidos apresentam maior risco de contrair câncer, o que nos leva a indagar se existe uma relação entre as mudanças na expressão gênica após a morte e o aumento do risco de câncer em receptores de transplantes. Mais uma vez filosofo… na maioria das vezes as células cancerosas proliferam na idade madura e quase inevitavelmente na velhice; seria isso uma tentativa de rejuvenescimento, que para a burra e cega natureza seria o retorno ao princípio, quando éramos seres unicelulares imortais, e a vida era vitoriosa sobre a morte?

Bem, para manter o espírito científico aqui, alguns cientistas forenses já consideram a descoberta uma contribuição importante para se precisar com grande margem de acerto o tempo de morte de uma pessoa.

6 Replies to “Morte e desespero dos genes”

  1. Essa discussão já está superada. A noção de “vida” é subjetiva, é um sentimento consciente em referência ao nosso eu. Microrganismos são hoje vistos como máquinas naturais de alto nível, e como tal podem ser sinteticamente criados (a Biologia Sintética trata desse assunto). Nesse contexto, podemos tratar os vírus como ferramentas evolucionárias.

  2. Mas o conceito de morte, de fim, de término é universal . Isso eu entendo. Ou acho que compreendo. Porque , se as bactérias, tiverem todas as condições irão realizar sua divisão binária indefinidamente. Portanto, não haverá morte. Mas os vírus como ferramentas evolucionárias não experimentam esse tipo de síntese, novas partículas virais são montadas de novo a partir dos vários componentes estruturais que são sintetizados na célula hospedeira. Por que tais “ferramentas” estão à margem desta realidade ? Obg.

  3. Genes virais “puros” são estranhos aos seres vivos, não são encontrados em procariontes e eucariontes. Os que eles compartilham foram adquiridos de células hospedeiras daqui mesmo. Incidentalmente, essas ferramentas adquiriram a capacidade de se propagarem usando as células que ajudaram a formar, mas o que eram antes de o protobionte aparecer na Terra? Certamente eles já estavam por aí, e ajudaram a montar o progenoto terrestre.

  4. Tendemos a ver conceitos médicos como saúde, doença, vida, morte, consciência, etc. como se fossem científicos. Mas medicina não é ciência. Apenas usa a ciência.

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