Percebendo a complexidade

Muitas vezes precisamos de uma metáfora e de uma noção precisa para lidarmos com situações em que muitos não percebem que o fracasso nas decisões decorre da não percepção de complexidade do problema.

Algumas noções poderão ajudar…

Tempestade perfeita

Chamamos tempestade perfeita a um conjunto de eventos que, quando ocorrem conjuntamente, produzem um efeito extremo, bem maior que a soma de todos eles. Uma tempestade perfeita é um efeito único, gerado a partir de uma conjunção casual de eventos por si sós raros. Por exemplo, o terremoto do Haiti em 2010 produziu devastação e caos num país muito pobre e sem recursos. Além da magnitude devastadora dessa catástrofe, seguiu-se uma epidemia de cólera com alta mortalidade. O terremoto foi um evento raro, e a epidemia foi oportunista, aproveitando o colapso sanitário, já precário, que se seguiu ao terremoto. Esses eventos convergiram para agravar uma calamidade por si só excepcional.

Paradigmas

Paradigmas são maneiras de perceber e interpretar o mundo, estruturas de raciocínio, que servem de referenciais para o pensamento, viseiras epistemológicas. O confronto entre pessoas posicionadas em paradigmas diferentes é frequentemente acirrado e violento, pois elas não percebem que estão utilizando estruturas cognitivas diferentes e enxergam o outro como ignorante, teimoso ou mal intencionado. Conflitos dessa natureza ocorrem o tempo todo ao nosso redor, e é bom prestar atenção neles, para não se envolver em discussões estéreis, procurando conduzir o debate com argumentos consistentes, apoiados em dados objetivos sempre que possível. É prudente examinar as premissas de um argumento antes de decidirmos sobre ele e então proceder a um julgamento cum grano salis.

Há dois tipos de paradigmas: paradigma de fé, que é inquestionável em si mesma; e paradigma cambiável, aquele que decorre de opinião, consenso ou pesquisa. Naturalmente, sendo a fé imutável, ela não pode ser questionada.

Uma boa discussão sobre este assunto e sobre formas enganosas de pensar pode ser apreciada em:

Leonard Mlodinow. The Drunkard’s Walk, New York: Pantheon Books, 2008. (Há tradução nacional)

As opiniões e as conversas

Acostumamo-nos desde cedo a ouvir opiniões e ideias e as incorporamos sem mesmo questioná-las. Elas formam trilhas neurais que nos levam a emitir opiniões automaticamente a partir delas, sem nenhum exame mais profundo. As ideias dominantes e a cultura vigente podem desviar-nos da razão crítica que nos garante independência e fundamenta uma conduta ética. Sempre é bom estar atento e não se deixar levar pela emoção do momento e pelo senso comum.

Quando estamos discutindo com alguém, o ponto importante é descobrir em que premissas ele se baseia para emitir sua opinião. Então podemos ver em que ponto ele ou nós estamos enganados. Entretanto, mesmo que apontemos um equivoco – supondo que estejamos certos –, ainda assim a pessoa pode não ser razoável e insistir na sua posição. Nas reuniões em que se debate uma ideia, de início há opiniões contrárias, mas no decorrer do debate, as premissas são examinadas por todos, e então se chega a um consenso informado.  Isso é o que se chama “conversação”, na terminologia da Cibernética de Segunda Ordem. Quando isso fracassa, geralmente é por questão de temperamento ou política.

Hipoteticabilidade

Há uma palavra que não se encontra em nossos dicionários: “hipoteticalidade”. Ela foi criada nos anos 80 por Wolf Häefele, então diretor do Centro Alemão de Pesquisas Nucleares, em Jülich. Ela expressa decisões graves que devemos tomar em sociedade, e para as quais não temos informação suficiente, devido à dificuldade de se conduzirem os testes ou experimentos necessários para uma decisão segura. Um exemplo é o chamado efeito estufa: isso realmente existe? E se existe, é um fenômeno poluente ou geofísico? É transitório ou permanente? Questões como alimentos transgênicos, políticas monetárias, testes de vacinas contra a aids e outras coisas sobre as quais se tomam decisões sem ideia ou parâmetro do que acontecerá são “hipoteticabilidades”.

Em muitas decisões políticas e militares, tanto faria se, ao invés de gastar saliva em intermináveis debates e memorandos, simplesmente se decidisse num jogo de cara ou coroa. O físico e nobelista David Ruelle, estudando as graves decisões tomadas na Antiguidade com base no Oráculo de Delfos, mostrou que não havia diferença significativa entre decisões políticas com base nos oráculos e as fundamentadas em julgamentos e opiniões. Sempre que estamos diante de uma situação que envolve hipoteticabilidade, muitas vezes podemos evitar gastos desnecessários e guerras simplesmente jogando cara ou coroa.